sexta-feira, 27 de março de 2015

Isso não é uma carta de amor

Arte de Liz - Quadriláteros Inexistenciais

Ei. Continua assim, pertinho de mim. Pode tirar os óculos – mesmo tendo consciência de que eu sou um borrão quando cê tá sem eles, eu quero ver seus olhos, sem nenhum obstáculo. Acaricio sua bochecha e te enxergo fundo, fixo em sua íris, grande, cor de nutella. Deslizo os dedos por seu rosto e você pisca, mostrando os cílios, compridos e curvadinhos. Me encolho e te abraço, sentindo seus lábios em minha testa, presenteando-me com um beijo ruidoso. Fecho os olhos.
Eu adoraria ter palavras para descrever tudo o que acontece dentro de mim quando você está próximo, mas não creio que seja possível. Quantos poetas ao todo já se empenharam em descrever esse sentimento, sem sucesso? Eu jogo a toalha. Sei que lendo isso você responderia sem hesitar que é amor, mas eu considero “eu te amo” uma expressão muito vaga – quase insuficiente, sabe? Incompleta. Porque eu te amo é uma coisa banal, cotidiana. O que a gente tem é diferente.
O que eu sinto no sábado à noite, quando você alega estar perto e eu ainda tentando me livrar da pilha de cadernos de cima da cama, não é amor. Não é só isso. É ansiedade, medo – felicidade. As pernas não param, o batimento acelera, o sorriso não descansa. Quando você chega e eu posso finalmente laçar minhas pernas em seu corpo ao ser levantada no ar, eu tenho certeza de que as quatro sílabas são totalmente ineficientes no trabalho de reunir tudo o que eu experimento ao ouvir o som da sua risada.

Você me pergunta se o que eu escrevo são cartas de amor, então hoje eu te respondo: não. São cartas de muito-mais-que-isso. Este é um dos incontáveis papéis que eu amasso tentando explicar minha reação ao toque dos seus braços, à textura dos seus cabelos, ao quanto meu coração esquenta só com a possibilidade de matar um pouquinho da saudade que a gente acumula durante a semana. Um dia eu juro que invento um termo que agregue tudo isso, resumindo tudo aquilo que eu tento ilustrar quando paro para me declarar. Enquanto isso, usarei esse termo batido e abusarei dos advérbios – talvez aumentado para “eu te amo tanto, muito” signifique algo parecido com o que eu sinto ao seu lado. 
Sabe (...)
Quando o tempo passa rápido
Quando você está ao lado dessa pessoa
Quando dá vontade de ficar nos braços dela
E nunca mais sair.
(Sei, eu sei.)